Desde a descoberta de uma doença grave, muitos aspectos e situações na vida são repensados. Não só pelo doente mas por todos os que o cercam.
Parece que suas células sofrem uma mutação, uma metamorfose, e isso faz com que sua realidade nunca mais retorne ao estado em que se encontrava antes do diagnóstico.
São lições diárias, pílulas de sentimentos aqui e acolá, que se somam, se multiplicam e se propagam, alterando nosso estado de consciência, nossa visão de mundo, nossos pensamentos e convicções.
Tenho repetido um destes ensinamentos há algum tempo, tendo sido ele uma constante na minha vida. Não se pré-ocupar.
Tempos atrás estive numa palestra do Dr. José Jacyr Leal Jr., no programa Crer-Ser Fraterno.
Ele explanava que quando sua fé é tal que te permite a certeza de estar com as mãos dadas com Deus a todo momento não há o que temer, basta confiar.
Todo o amor, toda a dor, tudo decorre do plano divino que é concebido pelo nosso crescimento, pelo nosso bem.
Assim como um pai educa e diz não aos filhos, Deus nos confere percalços sim. Quem planeja ou deseja perder entes queridos, sofrer acidentes, adoecer? Em sã consciência, ninguém.
Mas se nos confrontamos com estas situações, com certeza, fazia parte do plano concebido para nosso bem.
Assim, todas as vezes que eu recebo uma notícia que parece ser triste ou ruim, eu simplesmente aperto minhas mãos, como o Dr ensinou, e mentalizo a mão de Deus segurando firmemente a minha. Deste modo, simplesmente sigo confiante, tendo a certeza que tudo o que acontecer será pelo melhor.
Não foi sempre assim.....
Quando recebemos o diagnóstico, eu tentava desesperadamente marcar consulta com os médicos de referência em Curitiba.
A primeira ligação que fiz foi desconcertante:
- Oi, preciso de uma consulta urgente para meu pai.
- Posso encaixar daqui uma semana. Mas é CA de quê?
- Pâncreas
- Ahhh, neste caso é grave, tenho consulta para amanhã.
..................................
O raciocínio some, desaparece.
As pernas nem respondem... Vc sente que flutua...
Relembrando aquele momento, hoje entendo perfeitamente aquela sensação: Eu estava sendo carregada no colo e não sabia.
Várias ocasiões posteriores àquela me fizeram pensar o pior.
- Será que ele conseguiria sobreviver à cirurgia?
Dois dias sem dormir.
Sim conseguiu.
- Será que aqueles enjoos, mal estar e fraqueza passariam?
Uma semana de cabeça fervendo.
Sim, deu certo.
- Putz, vai começar a quimio, será que ele vai passar mal?
Três dias nervosa antes de cada aplicação.
Cansaço, menos pior.
- Será que o CA baixou?
Chegava o Natal e não chegava o exame.
Baixou, ok. Algum tempo de paz.
O casamento chegando, incertezas... Será que ele estaria bem?
Nossa, quanto tempo perdido, quanto estômago magoado, quantas noites de insônia...
Se naquela época eu tivesse mais confiança nos desígnios divinos.....
Hoje, os percalços continuam aparecendo.
Nem tudo são flores e sempre temos um motivo ou outro para a adrenalina subir.
O último foi o exame de imagem que informava que os nódulos do pulmão haviam dobrado de tamanho...
Foi numa sexta feira.
Sábado seria a festa do vô.
Se nós tivéssemos nos ocupado previamente da dor e sofrimento que supostamente viriam, não teríamos nos divertido tanto naquela festa tão especial.
Segunda feira chegou, as notícias ruins viraram boas.
O mundo não acabou, estamos aqui, felizes e confiantes em Deus.
Isso me lembra um texto que conheci na infância, que me foi apresentado pela mãe.
Diz assim:
Uma noite eu tive um sonho...
Sonhei que estava andando na praia com o Senhor e através do céu, passavam cenas da minha vida.
Para cada cena que passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era meu e o outro era do Senhor.
Quando a última cena passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me aborreceu deveras e perguntei então ao Senhor:
- Senhor, Tu me disseste que, uma vez que resolvi te seguir, Tu andarias sempre comigo, em todo o caminho. Contudo, notei que durante as maiores atribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas em que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixaste sozinho.
O Senhor me respondeu:
- Meu querido filho. Jamais eu te deixaria nas horas de provas e de sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exatamente aí que eu te carreguei nos braços do pai.
Conduz nossas vidas, meu Deus.
Confiamos e esperamos em ti.
Sigo de mãos dadas nas Vossas. Essa paz de espírito é impagável.
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