sexta-feira, 5 de junho de 2015

As relembranças da UTI

Minha filha amada me deu um livro de presente, “Bianca Toledo a história de um milagre”, no livro a autora conta sua trajetória depois do nascimento de seu filho quando a mesma teve uma infecção generalizada, por conta de uma perfuração intestinal, e esta jovem cantora gospel passou quase 60 dias em uma UTI, logo após o nascimento do filho, sem a possibilidade de vê-lo, tocá-lo, e literalmente entre a vida e a morte. Passou por paradas cardíacas, abdômen aberto durante toda a estada na UTI, coma profundo e a recuperação aos poucos, com o travamento dos movimentos, as mãos fechadas pelo tempo excessivo sem movimentos, enfim um sofrimento enorme.
O que eu passei nas duas estadas na UTI nem de perto foi o que ocorreu com esta jovem guerreira, entretanto a lembrança daqueles dias intermináveis em uma cama, refém de meu próprio corpo me levaram aos prantos, durante a leitura do livro, que fiz em um único dia.
Na primeira vez que fui para a UTI ao acordar dei gracas a Deus por estar ali, uma vez que a cirurgia para a retirada do tumor foi muito grande, e a possibilidade de eu ter “ido” era muito grande.
Não estava entubado, respirava normalmente, mas o desconforto era enorme. Sentia dores por todo o corpo, não conseguia me mexer, por mais que tentasse, e qualquer esforço parecia descomunal, por mais que fosse para erguer o braço.
Muita sede, não conseguia articular as palavras, e cada vez que via alguém passar próximo do meu “box” no. 17 pedia um pouco de água, sem ser atendido.
Não tinha a nocao do tempo o que me incomodava mais ainda, sabia apenas que era dia ou noite, e durante a noite os barulhos na UTI são imensos, aparelhos apitando o tempo todo, tanto os que me monitoravam, quanto os dos demais pacientes, percebia nitidamente os momentos de higiene dos pacientes, quando as equipes de enfermagem iam de leito em leito dar banho em cada um de nós, inertes, sem forças, e muitos dos meus “colegas” inconscientes.
Uma senhora próxima ao meu box não articulava as palavras, mas gritava muito o tempo todo, trazendo um clima mais pesado ainda naquele ambiente.
Quando chegava a minha vez, me sentia até feliz, alguém vai mexer meu corpo, vão me fazer virar de lado, fazer a barba, me dar uma gaze molhada com algumas gotas de água para amenizar a sensação terrível de sede.
Eram momentos quase sublimes, que renovavam as forcas para prosseguir. E a hora de visitas então, eram momentos mágicos, onde podia rever minha Bella Amada e meus filhos, nem que fosse por alguns momentos, e como passavam rápido.
Na segunda ida à UTI depois da hemorragia, a experiência foi pior, uma vez que tinham algumas pacientes que relutavam em cada procedimento, e além das reclamacoes dioturnas a própria equipe de enfermagem tinha que ter muita paciência no atendimento.
Como já havia tido a experiencia da primeira “viagem” na UTI, a segunda vez me parecia ser melhor, mas ledo engano, foi mais difícil, porque não sabia exatamente o que havia ocorrido, tinha consciência de que estava na UTI, que havia passado por algo extremamente grave, e que minha condição física me levaria a recuperação, que poderia ser muito lenta.
E de fato foi, fiquei na UTI por mais cinco dias, sem a condição de dominar meu corpo, e esta é a sensação mais difícil, você tenta com todas as tuas forças, mas não consegue mover uma perna, não consegue se virar de lado na cama, esta perdido em um leito sem saber que horas são, se chove se esta calor, enfim é uma sensação muito difícil e precisa de muita determinação e fé para superá-la.
Nao posso me comparar à situação da Bianca Toledo, fui muito agraciado por Deus e Maria por ter passado por poucos dias na UTI, mas certamente o que me fez chorar ao ler o livro foram a sensação de empatia com a experiência da autora, e as lembranças difíceis de ter que passar míseros cinco dias em uma UTI.
Não desejo a ninguém esta “aventura” mas por outro lado fico feliz e agradecido a Deus e Maria por terem me trazido de volta depois de duas cirurgias uma delas que quase me levou embora, e pelos recursos que hoje a medicina possui para salvar vidas.

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