domingo, 26 de julho de 2015

O início de tudo


Aos 58 anos me sentia o “super homem”, trabalho, muito trabalho, viajava muito pela empresa, quase toda a semana, e por uma questão de cultura da mesma, muitas viagens eram feitas de carro a São Paulo, desgastantes, e com agendas cheias. Estava ainda escrevendo dois livros, preparando aulas para a Universidade Positivo, ministrando aulas de pós graduação, gravando aulas de pós na modalidade EaD, correndo com as consultorias, enfim, muito trabalho, deixando de lado a família, os amigos e a saúde.
Meus exames semestrais sempre foram bons, ou seja, dentro dos indices considerados “normais” glicose, colesterol, PSA, etc. Estava com sobre peso, (135 kg) vida sedentária, mas mesmo os exames de coração apontavam a normalidade, apesar de ter feito um “pacto” com o cardiologista que iria mudar de hábitos, caminhar, cuidar da alimentação, mas fazia isto com muito pouca boa vontade.
Mas aí começaram os sintomas, inicialmente má digestão, azia (nunca tive azia em minha vida), a urina estava mais escura, e comecei a me preocupar.
Falei com a Bellinha, e decidimos que iria fazer um check up. Mas entre a decisão e a ação o prazo ia correndo.
Ate que em uma oportunidade, na missa de sétimo dia de minha madrinha, estava presente meu primo que dirige um hospital aqui em Curitiba e a Bellinha foi falar com ele e não pude mais escapar.
Na mesma semana estava lá fazendo uma varredura completa, exames de todo o tipo, coleta de materiais, e a tomografia.
Os exames apontavam o de sempre, ou seja nada de anormal, mas a tomografia, esta sim apontava algo estranho.
A médica que me acompanhava veio falar conosco e passou seu diagnóstico;
“Olha tem alguma coisa, aparentemente no figado, mas não posso afirmar nada”
Diagnóstico altamente inconclusivo, bem de quem esta em cima do muro, preocupante? Sim com certeza, gerando a primeira das grandes ansiedades e inseguranças de minha vida.
Fui encaminhado ao médico do aparelho digestivo, e tome mais exames, nova tomografia, ressonância, e ai a surpresa.
Quando estava fazendo a tomografia pude ver claramente no televisor uma “bola” em meu organismo, questionei a medica que estava fazendo o exame, e obviamente ela não disse nada  conclusivo, “olha seu Sergio quem tem que dizer algo e o médico que faz a avaliacao do exame” ou seja, nada vi nada sei, e se sei não vou te dizer.
Um dos exames solicitados foi o CA que mede o índice de câncer no sangue, e este estava 1500, quando o normal é ate 35.
Este resultado me fez parar e refletir muito, não entrei em desespero, até porque queria ouvir o médico, mesmo considerando que a Bellinha falou com meus primos médicos e é claro eles não afirmaram nada de forma contundente, pediam calma e que fossemos ao médico especialista no aparelho digestivo.
Marquei com o  médico e a Bellinha e a Carol queriam ir junto, eu acabei chegando antes, e comecei a conversa com o médico. Ele viu os exames, leu com calma todos os resultados, enquanto lia me olhava com o canto do olho para ver minhas possíveis reações, e aqueles que me conhecem sabem de minha paciencia e calma.
Antes das duas entrarem esbaforidas no consultorio ele me disse; “você esta com um problema maior, os exames apontam um câncer no pâncreas, você vai enfrentar duras batalhas, bastante sofridas, penosas e longas... prepare-se”.
Respondi a ele que eu já sabia que tinha câncer desde a tomografia e que estava me preparando para esta guerra, neste momento as duas entraram translúcidas, nervosas, mas eu já havia encerrado a conversa ali.
Fomos embora, consternados, sem nos falar muito, e começamos a procurar novos recursos.
A notícia que você tem uma doenca como esta é algo muito forte, mexe com sua estrutura, abala seus sentimentos, mas a partir daquele momento eu optei por lutar pela minha vida, acreditando em Deus e Maria, entregando minha alma a Ele e sua Mãe, e fazendo minha parte neste processo, que eu sabia que seria muito difícil. Não que eu tivesse procurado ler, entender os detalhes desta doença, mas em meu íntimo sabia que estava sendo posto à prova e com muita fé poderia superar tudo, mesmo passando muitas dificuldades.
A partir dai precisei me reorganizar, não conseguia mais escrever, minha saúde estava piorando a cada dia, soube depois que estava com uma compressão em um dos canais que libera a bílis ao estômago, provocando o derramamento desta bílis em meu organismo, ou seja estava ficando amarelo, como quem está com hepatite. O termo é icterícia, olhos amarelos, pele amarelada, perda de apetite, mal estar, desânimo, falta de concentração, entre outros.
Não conseguia escrever meus livros, agendava a gravação das aulas, mas muitas vezes os exames coincidiam, e tive de abrir mão de encerrar meu modulo nas aulas à distância.
No trabalho não conseguia mais viajar, não tinha mais saúde para isto.
Não apenas repensar a vida, mas tomar algumas atitudes foi o mais difícil, conversei muito com minha amiga Marivel, que é psicologa, e ela me fez ver muitas coisas que eu não havia pensado.
E seu eu não conseguir sobreviver? Como fica a Bellinha, como ela vai sobreviver? Os filhos estão encaminhados, mas ela era a minha maior preocupação.
Fui me organizando para deixá-la em condições de sobreviver, economicamente, decidi vender a casa com o terreno que tínhamos ao lado, procurando trocar por um apartamento e mais imóveis de modo que isto irá  gerar uma renda, aliada à aposentadoria e os seguros de vida que tenho, irão proporcionar à Bellinha uma condição de vida adequada.
Esta decisão é realmente muito difícil, você precisa assumir que poderá morrer e em breve. Vender imoveis não é tarefa fácil, trocar por apartamentos é mais difícil ainda, tanto é que demoramos 01 ano para fechar o negocio.
Mas conseguimos e foi possível deixar a Bellinha em condições de sobreviver economicamente.

Pitaco da filha: foi possível acalmar o coração. Mas ela não vai precisar disso. Vocês vão aproveitar tudo juntos.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Novos resultados


Esta semana tive “folga” na quimioterapia, aguardando o resultado do CA. Confesso que a espera não foi fácil, sempre e uma incógnita, tudo pode acontecer, o numero era 135, e talvez a lembranca de abrir o resultado com um número absurdo me assustava.
Recebi o e-mail no celular, a tarde, estava na faculdade, e o arquivo não abriu.
Mais ansiedade, o que poderia significar?
Cheguei em casa, jantamos com calma, tranquilidade (pelo menos aparente) chamei a Bellinha dizendo que queria mostrar algo para ela no computador.
Abri o e-mail, consegui abrir o arquivo e sem olhar para o mesmo enviei para a impressao.
Neste momento meu coracao pulava angustiado, mil coisas passavam pela minha cabeca enquanto a impressora calmamente trabalhava.
Entreguei os papeis para a Bellinha e, a Lei de Murphy falou mais alto, a ultima pagina escancarava o numero 140.
Bom sinal? Mau sinal? Na visão da Bellinha bom sinal, a doença não evoluiu, na minha visão não tão bom assim, ou seja não diminuiu.
Segundo a última informação da medica, o resultado do CA irá indicar o caminho a seguir, como não existe tumor no organismo, apenas os pontos milimétricos nos pulmões, e alguns necrosados, ou seja, indicando que os tumores foram necrosados pela medicação.
Neste caso o caminho a seguir é o de reforçar o medicamento para “atacar” os pontos nos pulmões, vamos aguardar o parecer da médica na próxima segunda feira.
Entendo que é melhor assim do que ficar imaginando mil possibilidades.
A semana que passou não foi fácil, tive muita fadiga, mas em um grau menor do que nas semanas anteriores, sentia uma especie de vertigem nas minhas caminhadas ao trabalho, mesmo que curtas. Em uma reunião ao me levantar vi todo o ambiente girar, mas logo depois parou e eu brinco muito com meu pessoal na faculdade que a viga do prédio vive se movimentando.
Porém o principal problema foi a perda de peso. Ao longo da semana perdi dois quilos, o que poderia ser maravilhoso para muitos, no meu caso e algo complicado, e olha que eu “caprichei” nas comilanças, sem exageros, tenho feito as refeições regularmente, estivemos na fazenda no final de semana e como toda família italiana comemos muito durante todo o final de semana.
Mesmo assim o peso não recupera, mas vamos ver o que a médica diz na próxima consulta. 
Força e fé, vamos em frente com Deus e Maria.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Que o Universo conspire. Amém.

O período de luta e sofrimento está finalmente chegando ao fim. Tenho certeza absoluta de que meu pai vai ter a resposta definitiva que ele merece. A cura. Porque esta doença não veio para o mal. Veio para mudar cada um de nós, para que ele fosse testemunha da fé e da esperança. O pai foi escolhido porque antes mesmo de tudo isso ele já inspirava muitas vidas. Hoje ele conforta tantos corações angustiados sem nem mesmo saber. A garra que ele demonstra na condução de tudo isso tem tocado muita gente.
Se dando aulas ele fazia bem a tantos jovens, mudava suas prospectivas, dava asas a seus sonhos, agora ele atinge mais fundo dentro de cada um, nos dá força, estímulo, fé e esperança.
O pai já mudou a vida de um aluno dele, paciente oncológico, que vivia uma vida sem objetivos, prostrado ao que ele achava ser seu destino, entregue a doença. Nesta época ele era um professor saudável e altivo que não precisava ser preocupar com aquele ser humano.
Mas ele não viu um número. Viu um jovem precisando de um norte. Eu vejo muita gente respondendo no blog que fala sobre isso. Como se sente inspirado.
É muito gratificante ler tudo isso, ver todo este movimento. Por favor não me entendam mal. Óbvio que eu queria que meu pai estivesse bem. Óbvio que eu preferia que ele não tivesse passado por tudo isso. Se eu pudesse eu arrancaria dele agora toda está dor, todo o medo, toda a angústia.
Mas Deus não quis assim. E se Ele, em toda sua sabedoria, assim determinou, eu só posso aguardar, confiar, ter fé e segurar nas mãos de Deus tendo a certeza que tudo acontece pelo melhor. Juntos, caminhando lado a lado, venceremos.

O tratamento


Retomamos as sessões de quimioterapia, encerrando agora o 4º ciclo. A tomografia mostrou um aumento discreto em nódulos no pulmão, e as opiniões são divergentes. A Dra. Mônica diz que  estes pontos aumentaram de tamanho, sendo milimétricos, porem para mim muito preocupantes. Alguns destes pontos apresentam necrose, o que, segundo a médica indica que o medicamento (quimioterapia) está fazendo efeito, ou seja, está eliminando estes pontos.
A dúvida esta em relação ao índice CA que estava em 70 passou a 1061, depois para 100 e chegou a 130, assim vamos fazer novo exame de CA na próxima semana e verificar o que acontece. Se estiver alto, a médica irá alterar o medicamento de modo a atacar diretamente os pontos no pulmão.
Todas estas incertezas me deixam preocupado, perdido mesmo, sem saber o que pensar. Me preocupa o fato de ter muita corisa, e principalmente durante as refeições, uma das possíveis explicações, de acordo com a Dra. Mônica, é uma alergia a alimentação, outros pacientes dela tem os mesmos sintomas, mas com nódulos no pulmão eu fico preocupado.
A preocupação está nas incertezas, alteração do CA, corisa, tive recentemente um princípio de pneumonia, o que pode ter afetado o aumento dos nódulos, mas tudo isto é uma incerteza muito grande, e eu estou no meio deste furacão, sendo literalmente o ator principal e quem recebera todas as consequencias do que vier a ocorrer. Minha fé em Deus e Maria e inabalável, tenho certeza que estou sendo abençoado e estou feliz por estar vivo, relativamente bem, sofrendo as consequencias da quimioterapia, as de sempre, muita fadiga, mal estar, desarranjo intestinal, mas  sei que o que tiver que enfrentar assim o farei por obra e graça de Deus e Maria.
Vamos em frente com fé e determinação, e com muita esperança de chegar a alcançar a graça da cura definitiva. Amém!!!