Aos 58 anos me sentia o “super homem”, trabalho, muito trabalho, viajava muito pela empresa, quase toda a semana, e por uma questão de cultura da mesma, muitas viagens eram feitas de carro a São Paulo, desgastantes, e com agendas cheias. Estava ainda escrevendo dois livros, preparando aulas para a Universidade Positivo, ministrando aulas de pós graduação, gravando aulas de pós na modalidade EaD, correndo com as consultorias, enfim, muito trabalho, deixando de lado a família, os amigos e a saúde.
Meus exames semestrais sempre foram bons, ou seja, dentro dos indices considerados “normais” glicose, colesterol, PSA, etc. Estava com sobre peso, (135 kg) vida sedentária, mas mesmo os exames de coração apontavam a normalidade, apesar de ter feito um “pacto” com o cardiologista que iria mudar de hábitos, caminhar, cuidar da alimentação, mas fazia isto com muito pouca boa vontade.
Mas aí começaram os sintomas, inicialmente má digestão, azia (nunca tive azia em minha vida), a urina estava mais escura, e comecei a me preocupar.
Falei com a Bellinha, e decidimos que iria fazer um check up. Mas entre a decisão e a ação o prazo ia correndo.
Ate que em uma oportunidade, na missa de sétimo dia de minha madrinha, estava presente meu primo que dirige um hospital aqui em Curitiba e a Bellinha foi falar com ele e não pude mais escapar.
Na mesma semana estava lá fazendo uma varredura completa, exames de todo o tipo, coleta de materiais, e a tomografia.
Os exames apontavam o de sempre, ou seja nada de anormal, mas a tomografia, esta sim apontava algo estranho.
A médica que me acompanhava veio falar conosco e passou seu diagnóstico;
“Olha tem alguma coisa, aparentemente no figado, mas não posso afirmar nada”
Diagnóstico altamente inconclusivo, bem de quem esta em cima do muro, preocupante? Sim com certeza, gerando a primeira das grandes ansiedades e inseguranças de minha vida.
Fui encaminhado ao médico do aparelho digestivo, e tome mais exames, nova tomografia, ressonância, e ai a surpresa.
Quando estava fazendo a tomografia pude ver claramente no televisor uma “bola” em meu organismo, questionei a medica que estava fazendo o exame, e obviamente ela não disse nada conclusivo, “olha seu Sergio quem tem que dizer algo e o médico que faz a avaliacao do exame” ou seja, nada vi nada sei, e se sei não vou te dizer.
Um dos exames solicitados foi o CA que mede o índice de câncer no sangue, e este estava 1500, quando o normal é ate 35.
Este resultado me fez parar e refletir muito, não entrei em desespero, até porque queria ouvir o médico, mesmo considerando que a Bellinha falou com meus primos médicos e é claro eles não afirmaram nada de forma contundente, pediam calma e que fossemos ao médico especialista no aparelho digestivo.
Marquei com o médico e a Bellinha e a Carol queriam ir junto, eu acabei chegando antes, e comecei a conversa com o médico. Ele viu os exames, leu com calma todos os resultados, enquanto lia me olhava com o canto do olho para ver minhas possíveis reações, e aqueles que me conhecem sabem de minha paciencia e calma.
Antes das duas entrarem esbaforidas no consultorio ele me disse; “você esta com um problema maior, os exames apontam um câncer no pâncreas, você vai enfrentar duras batalhas, bastante sofridas, penosas e longas... prepare-se”.
Respondi a ele que eu já sabia que tinha câncer desde a tomografia e que estava me preparando para esta guerra, neste momento as duas entraram translúcidas, nervosas, mas eu já havia encerrado a conversa ali.
Fomos embora, consternados, sem nos falar muito, e começamos a procurar novos recursos.
A notícia que você tem uma doenca como esta é algo muito forte, mexe com sua estrutura, abala seus sentimentos, mas a partir daquele momento eu optei por lutar pela minha vida, acreditando em Deus e Maria, entregando minha alma a Ele e sua Mãe, e fazendo minha parte neste processo, que eu sabia que seria muito difícil. Não que eu tivesse procurado ler, entender os detalhes desta doença, mas em meu íntimo sabia que estava sendo posto à prova e com muita fé poderia superar tudo, mesmo passando muitas dificuldades.
A partir dai precisei me reorganizar, não conseguia mais escrever, minha saúde estava piorando a cada dia, soube depois que estava com uma compressão em um dos canais que libera a bílis ao estômago, provocando o derramamento desta bílis em meu organismo, ou seja estava ficando amarelo, como quem está com hepatite. O termo é icterícia, olhos amarelos, pele amarelada, perda de apetite, mal estar, desânimo, falta de concentração, entre outros.
Não conseguia escrever meus livros, agendava a gravação das aulas, mas muitas vezes os exames coincidiam, e tive de abrir mão de encerrar meu modulo nas aulas à distância.
No trabalho não conseguia mais viajar, não tinha mais saúde para isto.
Não apenas repensar a vida, mas tomar algumas atitudes foi o mais difícil, conversei muito com minha amiga Marivel, que é psicologa, e ela me fez ver muitas coisas que eu não havia pensado.
E seu eu não conseguir sobreviver? Como fica a Bellinha, como ela vai sobreviver? Os filhos estão encaminhados, mas ela era a minha maior preocupação.
Fui me organizando para deixá-la em condições de sobreviver, economicamente, decidi vender a casa com o terreno que tínhamos ao lado, procurando trocar por um apartamento e mais imóveis de modo que isto irá gerar uma renda, aliada à aposentadoria e os seguros de vida que tenho, irão proporcionar à Bellinha uma condição de vida adequada.
Esta decisão é realmente muito difícil, você precisa assumir que poderá morrer e em breve. Vender imoveis não é tarefa fácil, trocar por apartamentos é mais difícil ainda, tanto é que demoramos 01 ano para fechar o negocio.
Mas conseguimos e foi possível deixar a Bellinha em condições de sobreviver economicamente.
Pitaco da filha: foi possível acalmar o coração. Mas ela não vai precisar disso. Vocês vão aproveitar tudo juntos.