sexta-feira, 26 de junho de 2015

A maior lição

Desde a descoberta de uma doença grave, muitos aspectos e situações na vida são repensados. Não só pelo doente mas por todos os que o cercam.
Parece que suas células sofrem uma mutação, uma metamorfose, e isso faz com que sua realidade nunca mais retorne ao estado em que se encontrava antes do diagnóstico.
São lições diárias, pílulas de sentimentos aqui e acolá, que se somam, se multiplicam e se propagam, alterando nosso estado de consciência, nossa visão de mundo, nossos pensamentos e convicções.
Tenho repetido um destes ensinamentos há algum tempo, tendo sido ele uma constante na minha vida. Não se pré-ocupar.
Tempos atrás estive numa palestra do Dr. José Jacyr Leal Jr., no programa Crer-Ser Fraterno.
Ele explanava que quando sua fé é tal que te permite a certeza de estar com as mãos dadas com Deus a todo momento não há o que temer, basta confiar.
Todo o amor, toda a dor, tudo decorre do plano divino que é concebido pelo nosso crescimento, pelo nosso bem.
Assim como um pai educa e diz não aos filhos, Deus nos confere percalços sim. Quem planeja ou deseja perder entes queridos, sofrer acidentes, adoecer? Em sã consciência, ninguém.
Mas se nos confrontamos com estas situações, com certeza, fazia parte do plano concebido para nosso bem.
Assim, todas as vezes que eu recebo uma notícia que parece ser triste ou ruim, eu simplesmente aperto minhas mãos, como o Dr ensinou, e mentalizo a mão de Deus segurando firmemente a minha. Deste modo, simplesmente sigo confiante, tendo a certeza que tudo o que acontecer será pelo melhor.
Não foi sempre assim.....
Quando recebemos o diagnóstico, eu tentava desesperadamente marcar consulta com os médicos de referência em Curitiba.
A primeira ligação que fiz foi desconcertante:
- Oi, preciso de uma consulta urgente para meu pai.
- Posso encaixar daqui uma semana. Mas é CA de quê?
- Pâncreas
- Ahhh, neste caso é grave, tenho consulta para amanhã.
..................................
O raciocínio some, desaparece.
As pernas nem respondem... Vc sente que flutua...
Relembrando aquele momento, hoje entendo perfeitamente aquela sensação: Eu estava sendo carregada no colo e não sabia.
Várias ocasiões posteriores àquela me fizeram pensar o pior.
- Será que ele conseguiria sobreviver à cirurgia?
Dois dias sem dormir.
Sim conseguiu.
- Será que aqueles enjoos, mal estar e fraqueza passariam?
Uma semana de cabeça fervendo.
Sim, deu certo.
- Putz, vai começar a quimio, será que ele vai passar mal?
Três dias nervosa antes de cada aplicação.
Cansaço, menos pior.
- Será que o CA baixou?
Chegava o Natal e não chegava o exame.
Baixou, ok. Algum tempo de paz.
O casamento chegando, incertezas... Será que ele estaria bem?
Nossa, quanto tempo perdido, quanto estômago magoado, quantas noites de insônia...
Se naquela época eu tivesse mais confiança nos desígnios divinos.....
Hoje, os percalços continuam aparecendo.
Nem tudo são flores e sempre temos um motivo ou outro para a adrenalina subir.
O último foi o exame de imagem que informava que os nódulos do pulmão haviam dobrado de tamanho...
Foi numa sexta feira.
Sábado seria a festa do vô.
Se nós tivéssemos nos ocupado previamente da dor e sofrimento que supostamente viriam, não teríamos nos divertido tanto naquela festa tão especial.
Segunda feira chegou, as notícias ruins viraram boas.
O mundo não acabou, estamos aqui, felizes e confiantes em Deus.
Isso me lembra um texto que conheci na infância, que me foi apresentado pela mãe.
Diz assim:
Uma noite eu tive um sonho...

Sonhei que estava andando na praia com o Senhor e através do céu, passavam cenas da minha vida.

Para cada cena que passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era meu e o outro era do Senhor.

Quando a última cena passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia.

Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me aborreceu deveras e perguntei então ao Senhor:

- Senhor, Tu me disseste que, uma vez que resolvi te seguir, Tu andarias sempre comigo, em todo o caminho. Contudo, notei que durante as maiores atribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas em que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixaste sozinho.

O Senhor me respondeu:

- Meu querido filho. Jamais eu te deixaria nas horas de provas e de sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exatamente aí que eu te carreguei nos braços do pai.
Conduz nossas vidas, meu Deus.
Confiamos e esperamos em ti.
Sigo de mãos dadas nas Vossas. Essa paz de espírito é impagável.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A ansiedade com o exame CA 19-9


O último exame de CA que indica o índice de câncer no sangue estava em 1.100 aproximadamente, e só faríamos o próximo exame após o terceiro ciclo de quimioterapia. Chegou o momento, colhi o sangue na semana passada e este exame demora cerca de 5 dias para ficar pronto. Na segunda feira posterior fomos à clínica para a consulta e quimioterapia, com os novos exames de plaquetas etc, graças a Deus tudo normal, mas estava muito ansioso com o resultado do CA. Durante a consulta nada do resultado, ocorreu algum problema e não teríamos o resultado pela manhã, quem sabe à tarde. Confesso que passei muitas noites mal dormidas, não pensava nas consequências de um aumento na doença, procurava não pensar no pior, mas o desconforto era muito grande. Com esta falta de resultado não foi possível fazer a quimioterapia, assim mais um dia ou dois de angústia.
No dia seguinte estava em casa, e toca  o telefone, por uma casualidade do destino eu atendi a ligação e do outro lado da linha uma senhora muito simpática mas cheia de “dedos” perguntou se era eu o Sérgio, identificou-se como a bioquímica do laboratório, e que estava com  o resultado do CA em mãos, e queria me explicar algumas coisas.
Atento e muito nervoso ouvia as explicações dela.
Disse que tiveram um problema no resultado do exame de CA, e que repetiram o exame para ter certeza do resultado, além do que iriam refazer o mesmo exame com o sangue colhido ontem. Disse ainda que o índice havia subido e esta foi uma das razões de se fazer novos exames, até aí não havia passado o resultado, e eu não me aguentando perguntei, Dra. qual foi o resultado?
Silêncio que parecia interminavel do outro lado da linha (talvez se passaram apenas alguns segundos) pareceu uma eternidade até que a resposta foi, o índice de CA foi de 101.
Não conseguia pensar com razão, mas sabia que de 1.100 para 101 o índice era fenomenal no lado bom, e depois aos poucos falei a ela que o exame efetuado anteriormente foi feito por outro laboratório e o índice tinha sido de 1.100.
Fui falar com a Bellinha passar a ela a informação, mas antes precisei me acalmar bastante, chorei muito, agradecendo a Deus e Maria por mais esta graça recebida.
Passar de 70 para 101 não significava absolutamente nada, o que foi confirmado com a médica posteriormente, e continuamos com a quimioterapia, normalmente, fechando os outros três ciclos que faltam.
Fé, força Deus e Maria sempre guiando nossas vidas.
O maior desejo que tenho e ouvir a frase você está de alta”, sei que vai demorar, mas as batalhas ficam menos difíceis com estas boas noticias, sei  que o caminho ainda é longo e penoso, mas com fé e a graça de Deus e Maria chegaremos lá.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Seis mãos

Fevereiro de 2014, boas notícias, a Maria Carolina e o Marcos vão se casar e o Marco Antônio e a Luana vem morar em Curitiba, finalmente estaremos todos juntos novamente. Abril de 2014, após alguns exames que deveriam ser um simples check-up,
recebi a pior notícia da minha vida: o Sergio tem câncer na cabeça do pâncreas e 3 a 6 meses de vida. Meu chão sumiu, a nossa vida passou em poucos segundos, como um filme em minha cabeça. E agora o que eu faço?choro, grito, sim, vou chorar muito e depois enfrentar com ele o que vier pela frente e assim foi, liguei para meus irmãos, minha mãe, contei tudo o que estava acontecendo, pedi que rezassem muito para Deus e Maria Passa na Frente, para que o Sergio se curasse e não me deixasse sozinha neste mundo e depois contei aos meus filhos, foi muito difícil contar a eles que o pai deles é meu amor teria tão pouco tempo de vida. Teve revolta, desespero, angústia, ansiedade, mas falei que revolta eu não aceitava, falei que se tivermos que passar por isso, passaremos todos juntos e com muita fé. Bem, passou alguns dias e o Sergio teve que ser operado de emergência para desobstruir o duto onde passa a bílis. Foi muito angustiante, mas passou. Ai veio a quimioterapia, foi muito forte, todas as quartas-feiras era dia de químio, foram 8 sessões, era muito sofrido, passávamos de 6 a 7 horas na Clínica, depois de 2 ou 3 dias vinha a fadiga, o Sérgio enfrentou tudo, fadiga, problemas intestinais, náuseas, muitos medicamentos. Ai chegou novembro, casamento da Carol e do Marcos no dia 08 de novembro e dia 10 de novembro voltamos ao hospital para a cirurgia para a retirada do tumor, essa cirurgia foi de enlouquecer, foram 10 horas de cirurgia, e depois direto a Uti por uns 6 dias, o Sergio enfraqueceu muito, ficou 25 dias sem comer nada, só soro e uma comida líquida que era por sonda. Mas enfrentamos tudo, juntos. De novembro até fevereiro, muita perda de peso, e sempre a fadiga. Fevereiro começamos novamente a químio e a radioterapia, também foi muito sacrificante, mas também passou, mais perda de peso. Agora ele ainda está fazendo químio por causa de uns nódulos muito pequeninos que apareceram no pulmão e também por causa do CA que continuava alto em fevereiro. Quero te dizer Sergio depois de tudo o que passamos juntos e com nossos filhos, genro e nora (que também são nossos filhos) , que depois de 1ano e 3 meses, aqui estamos, caminhando para a tua cura total, quero te dizer, que o meu amor por ti só aumenta, que tudo o que passares eu estarei sempre junto contigo. Quero que me perdoes porque as vezes, perco a paciência, por que tu não queres tomar o suplemento, porque tens que tomar muito remédio,  mas também preciso te dizer que do lado de cá não é nada fácil, ver você tendo fadiga, náuseas, etc. Preciso te dizer que sempre estarei com você, o meu amor por ti é eterno. E que de agora em diante tudo mudará, estaremos mudando de nossa casa para  nosso apartamento, teremos uma nova vida, novos vizinhos, muita criança por perto e estaremos à espera dos nossos netos. Vamos  ser felizes e passaremos por tudo o que está escrito com alegria e muita fé. Deus está no comando e Maria Passa na Frente, sempre resolvendo o que somos incapazes de resolver é assim chegaremos à tua cura completa. Te amo meu amor. Muito obrigada por existires em minha vida. Meus filhos obrigada por tudo. Lembremos sempre que estamos caminhando para a cura. Mais uma vez, te amo Sergio, nunca cansarei de dizer-te TE AMO.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

As relembranças da UTI

Minha filha amada me deu um livro de presente, “Bianca Toledo a história de um milagre”, no livro a autora conta sua trajetória depois do nascimento de seu filho quando a mesma teve uma infecção generalizada, por conta de uma perfuração intestinal, e esta jovem cantora gospel passou quase 60 dias em uma UTI, logo após o nascimento do filho, sem a possibilidade de vê-lo, tocá-lo, e literalmente entre a vida e a morte. Passou por paradas cardíacas, abdômen aberto durante toda a estada na UTI, coma profundo e a recuperação aos poucos, com o travamento dos movimentos, as mãos fechadas pelo tempo excessivo sem movimentos, enfim um sofrimento enorme.
O que eu passei nas duas estadas na UTI nem de perto foi o que ocorreu com esta jovem guerreira, entretanto a lembrança daqueles dias intermináveis em uma cama, refém de meu próprio corpo me levaram aos prantos, durante a leitura do livro, que fiz em um único dia.
Na primeira vez que fui para a UTI ao acordar dei gracas a Deus por estar ali, uma vez que a cirurgia para a retirada do tumor foi muito grande, e a possibilidade de eu ter “ido” era muito grande.
Não estava entubado, respirava normalmente, mas o desconforto era enorme. Sentia dores por todo o corpo, não conseguia me mexer, por mais que tentasse, e qualquer esforço parecia descomunal, por mais que fosse para erguer o braço.
Muita sede, não conseguia articular as palavras, e cada vez que via alguém passar próximo do meu “box” no. 17 pedia um pouco de água, sem ser atendido.
Não tinha a nocao do tempo o que me incomodava mais ainda, sabia apenas que era dia ou noite, e durante a noite os barulhos na UTI são imensos, aparelhos apitando o tempo todo, tanto os que me monitoravam, quanto os dos demais pacientes, percebia nitidamente os momentos de higiene dos pacientes, quando as equipes de enfermagem iam de leito em leito dar banho em cada um de nós, inertes, sem forças, e muitos dos meus “colegas” inconscientes.
Uma senhora próxima ao meu box não articulava as palavras, mas gritava muito o tempo todo, trazendo um clima mais pesado ainda naquele ambiente.
Quando chegava a minha vez, me sentia até feliz, alguém vai mexer meu corpo, vão me fazer virar de lado, fazer a barba, me dar uma gaze molhada com algumas gotas de água para amenizar a sensação terrível de sede.
Eram momentos quase sublimes, que renovavam as forcas para prosseguir. E a hora de visitas então, eram momentos mágicos, onde podia rever minha Bella Amada e meus filhos, nem que fosse por alguns momentos, e como passavam rápido.
Na segunda ida à UTI depois da hemorragia, a experiência foi pior, uma vez que tinham algumas pacientes que relutavam em cada procedimento, e além das reclamacoes dioturnas a própria equipe de enfermagem tinha que ter muita paciência no atendimento.
Como já havia tido a experiencia da primeira “viagem” na UTI, a segunda vez me parecia ser melhor, mas ledo engano, foi mais difícil, porque não sabia exatamente o que havia ocorrido, tinha consciência de que estava na UTI, que havia passado por algo extremamente grave, e que minha condição física me levaria a recuperação, que poderia ser muito lenta.
E de fato foi, fiquei na UTI por mais cinco dias, sem a condição de dominar meu corpo, e esta é a sensação mais difícil, você tenta com todas as tuas forças, mas não consegue mover uma perna, não consegue se virar de lado na cama, esta perdido em um leito sem saber que horas são, se chove se esta calor, enfim é uma sensação muito difícil e precisa de muita determinação e fé para superá-la.
Nao posso me comparar à situação da Bianca Toledo, fui muito agraciado por Deus e Maria por ter passado por poucos dias na UTI, mas certamente o que me fez chorar ao ler o livro foram a sensação de empatia com a experiência da autora, e as lembranças difíceis de ter que passar míseros cinco dias em uma UTI.
Não desejo a ninguém esta “aventura” mas por outro lado fico feliz e agradecido a Deus e Maria por terem me trazido de volta depois de duas cirurgias uma delas que quase me levou embora, e pelos recursos que hoje a medicina possui para salvar vidas.

Encontros

Sabe aquele encontro que estava escrito?
A mãe estava acompanhando o pai em mais uma consulta. Estava fazendo a segunda etapa do 3º ciclo de quimio.
Notou na recepção uma moça chorando muito.
Nessas horas a empatia fala muito alto. Minha mãe já viu aquela cena, e a moça chorosa era eu, a filha dela, um ano atrás.
Óbvio que ela foi falar com a moça.
Acho que assim como minha mãe sentiu necessidade de dar colo, a moça sentiu necessidade de falar. De contar sobre a dor que sentia.
E a história fez um filme passar na cabeça da mãe.
-Sabe, meu pai foi diagnosticado com câncer de pâncreas. Inoperável. Situação muito difícil. Está fazendo quimio agora, mas estamos sofrendo muito, deseperançosos.
Lágrimas grossas escorriam pelo semblante dela.
Garanto que a mãe reviu aquela cena.
Eu sentada na mesma recepção, chorando, sendo confortada pelo médico maravilhosamente humano que dizia: deixa ela chorar, deixa. As lágrimas grossas descendo sem controle, sem vergonha, expressando a maior dor que eu já havia sentido. E ele lá, com as mãos nos meus ombros, como quem dissesse: estou com você. Vou fazer o melhor.
Ela engoliu... e começou...
- Olha, moça... Deixa eu te contar a nossa história.
E lá foi ela, narrando nosso milagre, como o pai havia conseguido ser operado meses depois do diagnóstico... E a moça foi se enchendo de esperança.
Enquanto ela era confortada, o pai dela passou por uma crise de pressão. Um sufoco que talvez seria demais para ela.
Dali a pouco a moça senta novamente ao lado da mãe. Olhar perdido.
Toma coragem e pergunta:
-Será que a senhora pode ir visitar meu pai?
E lá foi a mãe, encher aquele quarto de esperança, de vida e de alegria.
E, num golpe absoluto de sincronicidade, por estar aberta à oportunidades, acabou descobrindo o segredo daquele paciente para manter a imunidade em alta - geléia real.
O pai estava tendo dificuldade de fazer a terceira etapa de cada ciclo por causa das plaquetas.
A mãe foi altruísta, recebeu sua bênção.
Geléia real para dentro, imunidade em alta, terceiro ciclo da quimio concluído com louvor.
E Deus continua se manifestando em nossas vidas.
Vamos em frente!