domingo, 4 de outubro de 2020

4 anos...

Que delícia eram nossos domingos! Separa o radinho, se arruma, cantoria no caminho, chopp na rua, pipoca no estádio, muito bate papo na volta. 
Que delícia era a vida com você, pai.
Tantas coisas que marcaram a nossa jornada, tanto a agradecer.
Admirei você a vida toda e continuo te admirando.
Você sempre foi digno, honesto, gentil, forte, amoroso, fiel, inteligente, pacífico. 
Que paizão eu tenho. 
Deus foi muito bom comigo por ter me dado essa família. 
Você se foi cedo demais, mas valeu tanto a pena, mas TANTO, que eu não tenho o que reclamar, somente agradecer.
Se eu pudesse ter feito somente um pedido a Deus seria que você tivesse tido tempo de conhecer sua neta. 
Não foi assim, não foi possível. 
Mas tudo bem né, pai?
Você ama ela daí, ela te ama daqui, e a gente continua sentindo saudades e desejando que você esteja bem, em paz, feliz,  na certeza de nosso reencontro um dia.
Eu te amo como sempre e para sempre.
Beijo da sua filhinha.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Por onde começar???

Antes deste blog existir eu consultei muitos outros, muitos mesmo, sobre a mesma temática... O câncer.
A maioria, como já expliquei, escrita pelo próprio paciente, que narrava sua batalha diária, seus medos, seus anseios, sua vitórias e derrotas.
Infelizmente, muitos deles tinham um capítulo final comum e desolador. O parente próximo, o cuidador, aquele que lutava ao lado mas que se mantinha anônimo, aparecia para noticiar o fim daquela jornada.
Algumas vezes, no início da nossa luta, questionei se um dia eu seria obrigada a fazer este papel tão triste e desolador.
Vocês que acompanharam nossa jornada sabem que nunca, jamais, perdemos a esperança.
Apesar do diagnóstico arrasador, de que teria somente 3 meses de vida, o pai lutou e realmente apresentou melhoras durante dois longos e lindos anos.
Tempos difíceis, mas que encheram nosso coração de esperança.
E foi assim até janeiro de 2016...
Neste período, o pai começou a apresentar um derrame pleural extenso bilateral, o que comprometia, e muito, sua capacidade respiratória.
Seu corpo magro e fragilizado estava sofrendo mais um grande baque.
Todos sabíamos que este era um dos sintomas de progressão da doença.
Os marcadores tumorais teimaram em subir, cada vez mais, a níveis assustadores.
A cada notícia difícil o pai oscilava. Primeiro sofria o baque. Se ressentia em sua dor e medo, para logo depois reconstruir sua fé, erguer a cabeça e seguir em frente.
Em fevereiro, depois de ter sido submetido a uma cirurgia que realmente resolveu o derrame pleural, meu pai recebeu a notícia de que seria avô.
O tão sonhado neto estava a caminho e ele fazia planos para cuidar do pequeno, levar à praia, passear.
Tudo o que via ele tratava de pensar: como seria se o bebê já estivesse aqui?
Estávamos na fase final da edição do livro, mas sua capacidade de concentração já tinha se esvaído há tempos, por esta razão eu assumi o trabalho.
Guardo com muito carinho o que ele escreveu quando recebeu a versão final:
Em 2016-03-11 17:03, Sergio Alexandre Centa escreveu:
Filha acabei de ler o livro com suas alterações e so posso dizer uma
coisa, tenho uma filha maravilhosa, uma escrita de mão cheia.
Parabéns te amo muito.
Beijos
Sergio Centa
Sim, sou filha de um ser sensacional.
Fizemos o lançamento do material numa noite imensamente fria.
Vaidoso, ele fez questão de ir com seu terno novo, que não era exatamente apropriado para o clima, por ser de tecido muito leve.
Entre bater de queixos e calor humano, passamos pela noite, que acabou numa pizzaria com a família reunida e muito feliz.
No dia do aniversário dele, dia 30 de abril, a mãe fez sua famosa feijoada e fizemos uma grande festa, como era tradicional, ano após ano.
Mesmo bastante fragilizado, o pai não perdia sua paixão pelo volante, e em 06 de maio, uma sexta feira, foi para Guaratuba resolver uma pendência qualquer.
No mesmo dia recebemos a notícia de que nosso bebê já nao estava mais se desenvolvendo. Eu havia sofrido um aborto retido.
Enquanto eu estava sendo internada, o pai mandava fotos da praia sonhando com as viagens que faria com o neto em breve.
Recebeu a notícia quando chegou em Curitiba e fez questão de estar ao meu lado. Deixou sua própria dor de lado e viveu meu luto com toda a intensidade.
Fomos nos recuperando espiritualmente, mas a saúde do pai não dava trégua.
Em julho, pouco antes de uma viagem que havíamos programado para a casa da minha avó materna, ele recebeu a notícia de uma recidiva da doença.
A médica suscitou a utilização de outro protocolo de quimioterapia e ele se agarrou a esta esperança.
Fomos viajar. O pai sofreu muito na viagem.
Cansaço físico extremo, dor emocional, mas mesmo assim desfrutou da companhia dos entes queridos, que ele realmente amava.
Ao retornarmos, em agosto, meu pai recebeu uma notícia bombástica: não havia nada a ser feito.
A médica, de forma fria, descreveu tudo o que ele sofreria até morrer, desde as dores, até internação, incapacidade respiratória e etc...
Naquele dia meu pai cansou da luta.
Sem nunca ter falado nada para a família, ele confidenciava aos amigos que não aguentava mais.
Vivemos dia após dia, nos próximos dois meses, vendo sua luz se apagar pouco a pouco.
Sem dar trégua, a doença estava vencendo.
As saídas raras do apartamento eram todas feitas com o auxílio de cadeira de rodas.
As dores que nunca foram admitidas por ele, estavam visivelmente mais fortes.
A voz foi ficando fraca...
E ele foi se despedindo.
Entre risos e lágrimas, nossa jornada estava acabando.
Havia dias bons, dias ruins, dias piores.
Em meio à dor as vezes ele soltava uma piada com a voz baixinha que fazia todo mundo rir, para logo depois deitar, descansar, dormir, e se apagar um pouquinho mais.
Certo dia, vendo uma reportagem na TV, a mãe brincou que ia fazer como a entrevistada e ia se lambuzar de doce de leite para o pai beijar. Ele soltou um: vou pensar, e deu risada.
É claro que a gente via que o fim estava próximo, mas ninguem admitia.
Fomos perdendo a capacidade de cuidar dele com dignidade. Por egoísmo, recusei-me a aceitar o fato de que ele precisava ser removido para o hospital.
A única que teve a coragem de tomar esta atitude foi minha mãe.
O pai foi levado, em estado de semi consciência, dia 02 de outubro para a UTI, onde foi medicado para a dor absurda que sentia, foi hidratado e foi cuidado por uma equipe médica maravilhosa e muito humana.
Acompanhamos sua luta incansável.
Mesmo com a oxigenação baixíssima, ele não se entregava, até que as 18:30 do dia 4 de outubro Deus o livrou de todas as dores e do medo.
Meu pai nos deixou sendo quem sempre foi, um homem guerreiro, gentil, amoroso, um exemplo de fé.
Peço desculpas por não ter noticiado antes aos nossos seguidores. Mas estes quase cinco meses de separação física ainda não foram suficientes para permitir que eu consiga pensar em tudo sem chorar.
A saudade que sinto dói fisicamente.
Dói espiritualmente.
Dói todo dia, toda hora.
Sou imensamente grata por ter esse pai tão especial, tão maravilhoso.
Foi ele que me fez fazer boas escolhas.
Meu primeiro amor foi um príncipe, que me tratou como princesa. Amava e respeitava minha mãe como uma rainha, colocava a família em primeiro lugar, antes dele mesmo.
Foi meu mestre, meu amigo, meu professor, meu confidente, meu ombro amigo.
Nenhum texto é capaz de demonstrar fidedignamente o amor e devoção que tenho por ele.
Estamos nos recompondo dia a dia, mas o amor que sentimos continua como sempre foi... Maior a cada dia. Isso a distância física é incapaz de mudar.
Que Deus te proteja meu pai.
Até um dia,
Beijo de sua filhinha.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A constatação


Desde que fomos à fazenda em julho percebi uma queda muito grande em minhas forças, falta de concentração, fraqueza nas pernas, e muita fadiga.
Eu já sabia que minha situação era ruim, apenas ouvi o que não gostaria de ouvir.
Na consulta a médica informou que a quimioterapia não está fazendo efeito, e novas sessões só trariam mais desconforto e fraqueza, indisposição etc.
O que fazer?
Nada...... paramos a quimioterapia e vamos aguardar, ou seja, nada mais pode ser feito, a não ser esperar pelo que vier.
Perguntei à médica quanto tempo eu tenho, e não tem como prever, de semanas a meses, este é o prazo, e as consequências em meu caso são um possível entupimento de uma veia importante, causando muita dor. Caso isto ocorra devo ser internado e sedado, nada mais.
Assim estou completamente nas mãos de Deus para que Ele decida o que vai ser de mim, estou sereno, não consegui chorar, e nem quero chorar mais, estou tranquilo preparando meu futuro incerto e sem um prazo definido, assim decidi viver minha vida junto a aqueles que eu amo da melhor forma possível.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O tremendo mal estar!!


Depois da última sessão minhas forças se exauriram e muito, passei muito mal a semana toda, antes de tomar a medicação na quarta feira, e depois da sessão a queda de resistência foi brutal. Não sentia sabor, aliás sentia um sabor ruim, boca seca, muita sede, coriza com sangue muitas das vezes, quantidade pequena, mas não sabemos do que se trata assim amanhã a consulta deve ser longa.
Não conseguia caminhar 30 metros, fui almoçar com meus pais no domingo com muito esforço, fui muito devagar e consegui, mas o esforço me deixou muito cansado. Tenho dificuldades em levantar, estando sentado, e além do frio intenso que sinto, tive dores abdominais e muitas cólicas.
Mesmo não estando tão frio assim ao deitar fico encolhido por 15 20 minutos até que meu organismo se adeque a temperatura, me aqueça.
Um quadro verdadeiramente preocupante, apesar do incentivo de todos, “você supera”, “tudo vai melhorar”, “logo logo  passa” e assim por diante.
Fico feliz pelas palavras de incentivo, mas a realidade é que estou passando literalmente mal, já tive momentos semelhantes, mas nunca duraram tanto tempo, assim a resiliência acaba sendo abalada, a auto estima vai pelo ralo.
Amanhã será um dia importante para que eu possa compreender o que está acontecendo e principalmente o que irá acontecer.
Fé em Deus e vamos em frente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O que será?


Sinto ainda a pancada das notícias, relembrando as palavras da médica, “as noticias não são boas, você teve uma recidiva, no mesmo local do início do tumor, o tratamento com quimioterapia não vai adiantar, vamos partir para um medicamento, é um tratamento novo e os pacientes tem reagido bem...”
Questionei se seria o caso de uma nova cirurgia ao que ela foi direta e objetiva, NÃO, a cirurgia não irá resolver nada.
Relembrei os últimos dias, tive diarréia, muita fadiga, dificuldades de andar rápido, quase fui atropelado por um motorista irresponsável no sábado que simplesmente não diminuiu enquanto eu atravessava a rua, senti sair um líquido com sangue do nariz por diversas vezes, amortecimento nas pernas e nas mãos, enfim um quadro de deterioração física que não sentia há muitos meses.
Voltando à consulta, a médica tentou me animar falando de minha ida aos USA, na qual gostaria de fazer o que se denomina “qualificação” que é uma pré defesa da tese de doutorado, mas depois deste turbilhão realmente não me sinto com ânimo para tanto.
Aliás meu ânimo realmente diminuiu, a chama está muito tênue, não consigo raciocinar, não sei realmente o que pensar neste momento.
Não sinto raiva, pena, sinto algo profundo, denso, triste, não consigo pensar no futuro como pensava com ânimo anteriormente, talvez pelas novas perspectivas, o que será, o que irá acontecer agora?
Por mais que eu tenha fé, coragem e forças, sinceramente me sinto perdido, não sei para onde ir, como ir e de forma tudo acontecerá, penso em minha família o que será deles, sei que ninguém é indispensável, sou apenas mais um na vida de todos e eles devem seguir seus passos com alegria e responsabilidade.
Espero em Deus que eu tenha uma chance, que eu possa seguir meu caminho seguindo a Sua Vontade, e que esta Vontade seja uma benesse em minha vida.
Agradeço a Deus todos os dias, e agradeço por mais esta prova dura, difícil e de uma intensidade imensa.
O que acontecerá amanhã ou depois e depois? Sinceramente não sei, e só saberei amanhã ou depois e depois, que Deus me ajude!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O grande balde de gelo!!


Nova consulta, expectativa para nova sessão de quimio, porém desde a semana passada estava sentindo um amortecimento nas pernas, o que dificulta o caminhar a passos mais rápidos. Segundo a médica, trata-se de uma miopatia, ou seja uma consequência das quimioterapias passadas o que deve melhorar com acupuntura.
Além disto, e o pior, o índice de CA aumentou, passou a 1.200, mesmo com uma leve subida de 100 pontos passa a ser preocupante.
Com a leitura dos resultados dos exames de imagem a médica percebeu uma recidiva no mesmo local da lesão inicial, ou seja a doença voltou.
O impacto foi grande, fiquei sem palavras, não tive reação imediata, parei sem pensar, me deu um branco total, não consegui ainda absorver o impacto.
Sei que é algo que tenho que trabalhar e muito, principalmente em minha mente, fé e determinação, as batalhas têm sido grandes, e às vezes parecem inúteis, sem fim. Pode ser visto como um processo de superação, de prova de fé, de coragem para enfrentar o que vem e o que virá.
A médica tentou me animar, falando sobre a minha qualificação do Doutorado em janeiro de 2017, o que pretendo fazer e com a benção de Deus farei nos USA, mas a pancada foi muito forte.
Depois do primeiro impacto, só pensei em uma frase da oração do Pai Nosso, “que seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu..”
Que assim seja Amém!!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

As sensações da última sessão de QT

Fizemos a última sessão na segunda feira, e a cada uma, novidades. Muitas vezes nem sempre boas. Nesta última me senti ótimo durante a aplicação, escrevi algumas páginas do doutorado, estava lépido e faceiro. Ao final, uma sensação estranha. Tremia de frio, apesar de que estava muito frio mesmo, mas não para tremer de frio, ou seja, não estava legal. Ao me levantar para ir embora, ao falar algo percebi que estava com a língua enrolada, falava como se tivesse bebido algo forte, o pensamento estava normal, mas ao tentar expressar minhas ideias não conseguia concatenar uma frase inteira, a velocidade do pensamento era muito maior do que a reação da fala, estava em uma espécie de “slow motion” engraçado se não fosse trágico. Ao caminhar para a saída percebi que não conseguia andar em linha reta, fazia “curvas” pequenas mas não era uma linha reta, muito estranho. Aos poucos fui recuperando minha capacidade de fala, e de andar normalmente, o corpo foi se adaptando a esta nova realidade e aos poucos o corpo reagiu e corrigiu os erros da fala e do caminhar. Fui deixar a Bellinha em casa porque tinha uma reunião com um cliente uma hora depois, fui buscar um documento antes e na reunião estava 90% recuperado, falando normalmente e caminhando em linha “quase” reta. Cada sessão uma novidade, mas esta foi a melhor de todas, o que é falar enrolado por algumas horas e andar quase em linha reta? Muito melhor do que passar mal, ter enjoos e as demais consequências sentidas anteriormente. Uma das coisas que ainda incomoda e muito é a falta de equilíbrio, todos os dias a experiência de colocar as roupas tem sido uma tarefa complicada, “acertar” a perna da calça é difícil às vezes, me seguro na pia e miro o buraco da calça para enfiar a perna, muitas vezes erro a pontaria e volto a me equilibrar e tentar de novo até acertar. Para pessoas “normais” vestir uma calça é algo que se faz sem pensar, mas no meu caso preciso pensar, mirar, apontar e FOGO..... lá vai a perna. O pior é quando erro, quase caio e fico alguns minutos olhando a bendita calça e aquele buraco aberto por onde minha perna vai entrar, e ela entra. kkkk Assim tem sido cada sessão e assim será até quando Deus queira. Vamos que vamos!!!