segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Por onde começar???

Antes deste blog existir eu consultei muitos outros, muitos mesmo, sobre a mesma temática... O câncer.
A maioria, como já expliquei, escrita pelo próprio paciente, que narrava sua batalha diária, seus medos, seus anseios, sua vitórias e derrotas.
Infelizmente, muitos deles tinham um capítulo final comum e desolador. O parente próximo, o cuidador, aquele que lutava ao lado mas que se mantinha anônimo, aparecia para noticiar o fim daquela jornada.
Algumas vezes, no início da nossa luta, questionei se um dia eu seria obrigada a fazer este papel tão triste e desolador.
Vocês que acompanharam nossa jornada sabem que nunca, jamais, perdemos a esperança.
Apesar do diagnóstico arrasador, de que teria somente 3 meses de vida, o pai lutou e realmente apresentou melhoras durante dois longos e lindos anos.
Tempos difíceis, mas que encheram nosso coração de esperança.
E foi assim até janeiro de 2016...
Neste período, o pai começou a apresentar um derrame pleural extenso bilateral, o que comprometia, e muito, sua capacidade respiratória.
Seu corpo magro e fragilizado estava sofrendo mais um grande baque.
Todos sabíamos que este era um dos sintomas de progressão da doença.
Os marcadores tumorais teimaram em subir, cada vez mais, a níveis assustadores.
A cada notícia difícil o pai oscilava. Primeiro sofria o baque. Se ressentia em sua dor e medo, para logo depois reconstruir sua fé, erguer a cabeça e seguir em frente.
Em fevereiro, depois de ter sido submetido a uma cirurgia que realmente resolveu o derrame pleural, meu pai recebeu a notícia de que seria avô.
O tão sonhado neto estava a caminho e ele fazia planos para cuidar do pequeno, levar à praia, passear.
Tudo o que via ele tratava de pensar: como seria se o bebê já estivesse aqui?
Estávamos na fase final da edição do livro, mas sua capacidade de concentração já tinha se esvaído há tempos, por esta razão eu assumi o trabalho.
Guardo com muito carinho o que ele escreveu quando recebeu a versão final:
Em 2016-03-11 17:03, Sergio Alexandre Centa escreveu:
Filha acabei de ler o livro com suas alterações e so posso dizer uma
coisa, tenho uma filha maravilhosa, uma escrita de mão cheia.
Parabéns te amo muito.
Beijos
Sergio Centa
Sim, sou filha de um ser sensacional.
Fizemos o lançamento do material numa noite imensamente fria.
Vaidoso, ele fez questão de ir com seu terno novo, que não era exatamente apropriado para o clima, por ser de tecido muito leve.
Entre bater de queixos e calor humano, passamos pela noite, que acabou numa pizzaria com a família reunida e muito feliz.
No dia do aniversário dele, dia 30 de abril, a mãe fez sua famosa feijoada e fizemos uma grande festa, como era tradicional, ano após ano.
Mesmo bastante fragilizado, o pai não perdia sua paixão pelo volante, e em 06 de maio, uma sexta feira, foi para Guaratuba resolver uma pendência qualquer.
No mesmo dia recebemos a notícia de que nosso bebê já nao estava mais se desenvolvendo. Eu havia sofrido um aborto retido.
Enquanto eu estava sendo internada, o pai mandava fotos da praia sonhando com as viagens que faria com o neto em breve.
Recebeu a notícia quando chegou em Curitiba e fez questão de estar ao meu lado. Deixou sua própria dor de lado e viveu meu luto com toda a intensidade.
Fomos nos recuperando espiritualmente, mas a saúde do pai não dava trégua.
Em julho, pouco antes de uma viagem que havíamos programado para a casa da minha avó materna, ele recebeu a notícia de uma recidiva da doença.
A médica suscitou a utilização de outro protocolo de quimioterapia e ele se agarrou a esta esperança.
Fomos viajar. O pai sofreu muito na viagem.
Cansaço físico extremo, dor emocional, mas mesmo assim desfrutou da companhia dos entes queridos, que ele realmente amava.
Ao retornarmos, em agosto, meu pai recebeu uma notícia bombástica: não havia nada a ser feito.
A médica, de forma fria, descreveu tudo o que ele sofreria até morrer, desde as dores, até internação, incapacidade respiratória e etc...
Naquele dia meu pai cansou da luta.
Sem nunca ter falado nada para a família, ele confidenciava aos amigos que não aguentava mais.
Vivemos dia após dia, nos próximos dois meses, vendo sua luz se apagar pouco a pouco.
Sem dar trégua, a doença estava vencendo.
As saídas raras do apartamento eram todas feitas com o auxílio de cadeira de rodas.
As dores que nunca foram admitidas por ele, estavam visivelmente mais fortes.
A voz foi ficando fraca...
E ele foi se despedindo.
Entre risos e lágrimas, nossa jornada estava acabando.
Havia dias bons, dias ruins, dias piores.
Em meio à dor as vezes ele soltava uma piada com a voz baixinha que fazia todo mundo rir, para logo depois deitar, descansar, dormir, e se apagar um pouquinho mais.
Certo dia, vendo uma reportagem na TV, a mãe brincou que ia fazer como a entrevistada e ia se lambuzar de doce de leite para o pai beijar. Ele soltou um: vou pensar, e deu risada.
É claro que a gente via que o fim estava próximo, mas ninguem admitia.
Fomos perdendo a capacidade de cuidar dele com dignidade. Por egoísmo, recusei-me a aceitar o fato de que ele precisava ser removido para o hospital.
A única que teve a coragem de tomar esta atitude foi minha mãe.
O pai foi levado, em estado de semi consciência, dia 02 de outubro para a UTI, onde foi medicado para a dor absurda que sentia, foi hidratado e foi cuidado por uma equipe médica maravilhosa e muito humana.
Acompanhamos sua luta incansável.
Mesmo com a oxigenação baixíssima, ele não se entregava, até que as 18:30 do dia 4 de outubro Deus o livrou de todas as dores e do medo.
Meu pai nos deixou sendo quem sempre foi, um homem guerreiro, gentil, amoroso, um exemplo de fé.
Peço desculpas por não ter noticiado antes aos nossos seguidores. Mas estes quase cinco meses de separação física ainda não foram suficientes para permitir que eu consiga pensar em tudo sem chorar.
A saudade que sinto dói fisicamente.
Dói espiritualmente.
Dói todo dia, toda hora.
Sou imensamente grata por ter esse pai tão especial, tão maravilhoso.
Foi ele que me fez fazer boas escolhas.
Meu primeiro amor foi um príncipe, que me tratou como princesa. Amava e respeitava minha mãe como uma rainha, colocava a família em primeiro lugar, antes dele mesmo.
Foi meu mestre, meu amigo, meu professor, meu confidente, meu ombro amigo.
Nenhum texto é capaz de demonstrar fidedignamente o amor e devoção que tenho por ele.
Estamos nos recompondo dia a dia, mas o amor que sentimos continua como sempre foi... Maior a cada dia. Isso a distância física é incapaz de mudar.
Que Deus te proteja meu pai.
Até um dia,
Beijo de sua filhinha.

5 comentários:

  1. Meu DEUS,que palavras maravilhosas, escritas por quem eu serei eternamente grato a Jesus Cristo e a Mãe Maria pelo privilégio de um dia ter conhecido. Um exemplo de filha, um modelo de família, a quem carinhosamente passei a chamar de mana por afeto. Carol, todos que conheceram o teu pai sabemos que ele está junto de Deus, intercedendo por quem aqui ficou. Você, o Marcos, a aguardada Maria e tua mãe Maria Ângela estão e estarão para sempre em minhas orações. E no meu coração.

    ResponderExcluir
  2. Carol!!!! Estou chorando! Você descreveu exatamente o que eu vi aí quando fui passar com vocês alguns dias, até o dia da despedida desse ser maravilhoso que era o Centa. Ele era uma pessoa fantástica, do bem. Amigo de todos e sempre fazendo tudo para ajudar. Tenho certeza de que ele está num lugar iluminado, de paz, ao lado de Nosso Senhor Jesus Ceisto. Ele sempre será lembrado por todos e deixou realmente muita saudade em todos. Te amo linda.

    ResponderExcluir
  3. Lindo Carol...digno desse grande amigo e exemplo que tive...lembro do meu amigo Sérgio todos os dias...e tenho certeza que um dia estaremos juntos novamente rindo...pois sabíamos fazer isso bem juntos....Força a todos dessa linda família. (Glavio Paura)

    ResponderExcluir
  4. Olá...Vc não me conhece, mas venho acompanhando seu blog desde 2015. Vc me deu este endereço em um grupo de ajuda de pessoas ou parentes com câncer no Facebook. Minha mãe tb sofreu mto, o mesmo câncer de pâncreas, cruel, fatal que nos afasta de forma terrível de quem nós amamos mto. Infelizmente minha linda mãe, delicada e forte como era, resistiu somente quatro meses. Tb sofreu com insuficiência respiratória e foi para o cti onde morreu tb as 18:30.Em abril fará dois anos que partiu. Mas sempre acompanhei este blog e achava linda a forma como vcs conduziam a sua situação, e tb a força e a alegria do seu pai. Sinto mto pela sua dor, ela machuca mto agente. Nunca deixe de acreditar em Deus pois somente Ele irá ajudar vcs a conviverem com esta ausência. Um grande abraço e deixo aqui minha solidariedade.
    Ana luiza Albuquerque Kalil
    Minas Gerais

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Luiza muito obrigada. Sinto muito por sua mãe. A saudade é muito dolorida mas o que considero mais difícil é saber o quanto eles sofreram. Meu pai lutou até o último momento, na maior parte do tempo com alegria e confiança. Tenho orgulho do que ele fez. Foi um grande professor. Que Deus abençoe sua família. Grande beijo

      Excluir